quarta-feira, 15 de março de 2017

Papai, vá em paz!

O processo de perda de um ente amado sempre é muito doloroso, mesmo com o conhecimento proporcionado pela Doutrina Espírita, mas o desencarne de nosso genitor, há alguns anos, permitiu-nos uma experiência singular.

Com mais de setenta e cinco anos e com quadro clínico crítico em decorrência de uma neoplasia maligna, acabou por entrar em estado de coma profundo, perdurando por mais de uma quinzena, e diariamente o visitávamos acompanhando o quadro sem expectativas de melhora. O desencarne era iminente.

Certo dia, acompanhado de minha mãe, procedemos a mais uma visita à Unidade de Terapia Intensiva para vê-lo, e ao adentramos o ambiente percebemos, intuitivamente, que algo estava “diferente”. Evocando o equilíbrio emocional em prece íntima tentamos “captar” de que se tratava.

Ele estava se segurando à vida física. Não se sentia seguro para desencarnar. Algo o incomodava em relação aos que ficavam.

Nesse momento a nossa pequena experiência em dialogar com desencarnados nas sessões mediúnicas do Centro Espírita falou mais alto. Num esforço íntimo para ajudarmos no que podíamos, começamos – com a ajuda dos trabalhadores espirituais do ambiente, tenho a convicção – a orientá-lo.

Externando gratidão disse a ele o quanto nós o amávamos, e tínhamos todos os motivos do mundo para isso, e que seu corpo físico já não reagia positivamente ao tratamento; que ele podia tranquilizar-se porque os representantes da Misericórdia Divina se faziam presente ao seu lado para ampará-lo.

Garantimos a ele que estávamos preparados para a separação física e que a saudade estaria sob controle, sempre confiantes em Deus.

Mas a intuição dizia que ainda faltava algo a falar, e percebendo isso entendemos porque ele se segurava na vida física.

A preocupação com o bem-estar de mamãe após sua partida era o motivo de sua permanência entre nós. Não sem razão. Os dois formam, isso mesmo, no presente, aquilo que podemos chamar de “almas afins”. Sempre foram um exemplo de como viver a vida conjugal, por pior que fossem as condições.

Foi quando dissemos a ele que todos os documentos e todas as providências legais estavam tomadas, e que mamãe não ficaria desamparada. Estávamos, os três filhos, prontos para ajudá-la na viuvez. Ela estava sofrendo, mas a fé a sustentava, e dentro das possibilidades ela estava preparada.

Nesse instante, apesar do coma profundo, duas lágrimas escorreram de seu olho esquerdo. Ele estava ouvindo tudo, e como em uma sessão mediúnica, percebemos que o monólogo estava chegando ao fim, e que ele havia entendido tudo. Despedi-me dizendo-lhe que estava agradecido, e com muito orgulho de ter sido seu filho nesta existência, pedindo que orasse e confiasse nas orientações dos médicos desencarnados que se encontravam presentes.

Por fim, disse-lhe: Papai, vá em paz. Também ficaremos em paz, como sempre nos ensinou.

Cerca de duas horas e meia depois fomos informados pelo Hospital que ele havia desencarnado.

Mais do que a teoria espírita, essa experiência nos deu a convicção que o espírito que habita o corpo, e mesmo em coma, pode se servir deste para manifestar-se no mundo material; a consciência do espírito independe, pelo menos em alguns casos, do estado físico; as preocupações terrenas, e também as alegrias, seguem com o espírito quando este desencarna; o sentimento que nos une não se desfaz com a separação física; o amparo fraterno sempre está presente junto das pessoas de bem.

Em decorrência percebemos que para desencarnar é necessário preparo, e assim como há cuidados em relação às convenções humanas para amparo aos que ficam, há os cuidados relacionados ao espírito imortal que segue, e não se pode deixar para a última hora, mas sim ser objeto de atenção no dia a dia, a vida inteira, para que sejam alcançados os objetivos traçados nos projetos reencarnatórios que antecedem as reencarnações.

Pensemos nisso.

Antônio Carlos Navarro

Nota do Editor:
Imagem em destaque disponível em <https://pixabay.com/pt/m%C3%A3os-bengala-idosos-pessoa-idosa-981400/>. Acesso em 14MAR2017.

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